Arte e Entretenimento
Arte é a atividade humana de reorganizar os elementos do mundo
sensível. Se o objeto dessa reordenação lúdica são os sons, trata-se de música.
Se imagens, arte visual. Se palavras, literatura. Quando o que reorganizamos são
as ações humanas, a arte ganha o adjetivo de dramática - que já foi só teatro, e
hoje também se espraia pelo cinema e pela ficção feita para televisão, vídeo,
internet, celular, etc. , ainda que essas últimas abarquem outras artes.
Quando escutamos com atenção a uma música, colocamos em xeque nossa capacidade
auditiva, mas também nosso repertório de sons e de estruturas sonoras. Já
conhecíamos esse acorde? E esse silêncio? Quando vemos uma peça de teatro,
revisitamos nosso repertório de relações humanas e de conceitos (morais,
políticos, existenciais) para compreender e nos colocarmos diante das situações
apresentadas.
Qualquer obra de arte nos obriga, ainda que artista e espectador não tenham
consciência disso, a nos redefinirmos física e simbolicamente.
Esse processo ocorre mesmo quando a fruição da obra se dá apenas em nível
sensorial ou emocional. Mas é claro que quanto mais informado e cultivado for o
espectador, mais profundamente ele vai conseguir aproveitar a experiência
artística. Nesse sentido, é sempre possível ampliar o prazer da experiência
estética.
O campo para o qual se pode crescer é o da razão e da consciência. A comunicação
sensorial pode se dar sempre . Qualquer analfabeto pode se emocionar com a
leitura de um poema de Carlos Drummond de Andrade. No entanto, se ele aprender a
ler e tiver acesso ao mesmo poema, com certeza o lerá à sua maneira, única,
incorporando-o a seu patrimônio simbólico. Isto é, ele tornará seu aquele poema.
É claro que o mesmo se dá se a mesma pessoa, sem aprender a ler, decorar o poema.
Mas, podemos afirmar, sem medo de sermos preconceituosos, que tal experiência
estará sempre aquém do potencial desse cidadão.
Qualquer pessoa que nunca tenha ido ao cinema pode se emocionar com um DVD de um
filme de Fellini. No entanto, se tiver o hábito de assistir ao audiovisual em
uma tela grande e com uma projeção decente, e conhecer um pouco da linguagem,
poderá se emocionar não só com a história, mas com a forma como ela é contada e
com os elementos sonoros e visuais que a compõem.
A rigor, a arte não tem função. O único sentido da arte é existir. A única
função do artista é produzir arte. O que não quer dizer que, independente ou
paralelo a essa autosuficiência, não possam existir funções inerentes ao
processo artístico: políticas, pedagógicas, sociais, terapêuticas, etc. Mas,
para que a arte possa amadurecer e frutificar em sua plenitude é essencial que
seu processo só esteja subordinado à sua lógica interna e à subjetividade do
artista – não confundir isso com a defesa da simples expressão da vontade do
artista. Para ser arte é preciso que dialogue e ultrapasse a tradição em que se
insere. Mas essa é uma condição a priori, não uma função.
Entretenimento é a atividade humana de distrair, relaxar o homem por meio da
reprodução de padrões artísticos já conhecidos. Uma comédia de costumes ou um
melodrama tout court, a música popular ou erudita que se estrutura apenas pela
reprodução de elementos conhecidos e queridos do gosto médio, as telenovelas ou
filmes de longa metragem “comerciais” são exemplos de obras produzidas tendo por
objetivo o entretenimento. Se a arte leva o indivíduo a redefinir os seus
sentidos, a função do entretenimento é levar o fruidor a esquecê-los. Mais ainda,
pretende que ele oblitere sua capacidade de refletir e simbolizar. A arte faz o
homem lembrar-se de si e reinventar-se. O entretenimento permite ao homem
esquecer sua própria existência e seus problemas ( isto é, suas circunstâncias).
Arte faz pensar. Entretenimento faz parar de pensar.
Ambas funções importantes e necessárias. Mas necessariamente antagônicas. Ainda
que exista um enorme universo de obras que transitam simultaneamente pelas duas
funções. O mundo não é branco e preto, mas cinza. Já vivi o suficiente para
aprender isso. No entanto, quando falamos de democratização da cultura e, pior
ainda, de financiamento público, misturamos sem pudor esses dois conceitos.
A arte, por sua própria natureza, implica em risco, incômodo, erro. O
Entretenimento, por seu lado, só é arriscado na medida em que tudo que é humano
é passível de erro. O entretenimento é parceiro natural da comunicação das
grandes empresas. A arte só o é excepcionalmente. Não vai aí um juízo de valor,
mas o reconhecimento do universo por onde transitam essas atividades. Nesse
sentido, as atividade pára-artísticas são parceiras mais naturais da comunicação
das grandes empresas. O investimento na área social e ambiental, cada vez maior,
encontra, por exemplo no teatro amador, educativo ou terapêutico, mecanismos
excepcionais de atuação, que satisfazem simultaneamente os objetivos da empresa
e as necessidades da comunidade.
A produção profissional de arte no Brasil se encontra descolada num limbo entre
um Estado incompetente e que lavou as mãos de suas responsabilidades na área e
um Mercado que ainda não se civilizou por completo. Daí uma produção que não se
define entre a arte e o entretenimento, que quer ser artístico, mas não aceita
riscos. Que quer entreter, mas almeja o estatuto de arte, que considera
superior.
No mundo globalizado, a função da arte é resistir. E para tanto, cada vez mais,
é preciso que os artistas lutem para poder produzir sem nenhuma outra função, a
não ser o exercício livre e responsável de seu ofício. Nunca foi tão difícil ser
simples.
Aimar Labaki é dramaturgo, diretor, novelista, tradutor e ensaísta.