O Educador bem sucedido
O educador bem sucedido
José Manuel Moran
Especialista em projetos inovadores na educação presencial e a distância
Por que, nas mesmas escolas, nas mesmas condições, com a mesma formação e os
mesmos salários, uns professores são bem aceitos, conseguem atrair os alunos e
realizar um bom trabalho profissional e outros, não?
Não há uma única forma ou modelo. Depende muito da personalidade, competência,
facilidade de aproximar e gerenciar pessoas e situações. Uma das questões que
determina o sucesso profissional maior ou menor do educador é a capacidade de
relacionar-se, de comunicar-se, de motivar o aluno de forma constante e
competente. Alguns professores conseguem uma mobilização afetiva dos alunos pelo
seu magnetismo, simpatia, capacidade de sinergia, de estabelecer um “rapport”,
uma sintonia interpessoal grande. É uma qualidade que pode ser desenvolvida, mas
alguns a possuem em grau superlativo, a exercem intuitivamente, o que facilita o
trabalho pedagógico.
Uma das formas de estabelecer vínculos é mostrar genuíno interesse pelos alunos.
Os professores de sucesso não se preparam para o fracasso, mas para o sucesso
nos seus cursos. Preparam-se para desenvolver um bom relacionamento com os
alunos e para isso os aceitam afetivamente antes de os conhecerem, se predispõem
a gostar deles antes de começar um novo curso. Essa atitude positiva é captada
consciente e inconscientemente pelos alunos que reagem da mesma forma,
dando-lhes crédito, confiança, expectativas otimistas. O contrário também
acontece: professores que se preparam para a aula prevendo conflitos, que estão
cansados da rotina, passam consciente e inconscientemente esse mal-estar que é
correspondido com a desconfiança dos alunos, com o distanciamento, com barreiras
nas expectativas.
É muito tênue o que fazemos em aula para facilitar a aceitação ou provocar a
rejeição. É um conjunto de intenções, gestos, palavras, ações que são traduzidos
pelos alunos como positivos ou negativos, que facilitam a interação, o desejo de
participar de um processo grupal de aprendizagem, de uma aventura pedagógica (desejo
de aprender) ou, pelo contrário, levantam barreiras, desconfianças, que
desmobilizam.
O sucesso pedagógico depende também da capacidade de expressar competência
intelectual, de mostrar que conhecemos de forma pessoal determinadas áreas do
saber, que as relacionamos com os interesses dos alunos, que podemos aproximar a
teoria da prática e a vivência da reflexão teórica.
A coerência entre o que o professor fala e o que faz, na vida é um fator
importante para o sucesso pedagógico. Se um professor une a competência
intelectual, a emocional e a ética causa um profundo impacto nos alunos. Estes
estão muito atentos à pessoa do professor, não somente ao que fala. A pessoa
fala mais que as palavras. A junção da fala competente com a pessoa coerente é
poderosa didaticamente.
As técnicas de comunicação também são importantes para o sucesso do professor.
Um professor que fala bem, que conta histórias interessantes, que tem feeling
para sentir o estado de ânimo da classe, que se adapta às circunstâncias, que
sabe jogar com as metáforas, o humor, que usa as tecnologias adequadamente, sem
dúvida consegue bons resultados com os alunos. Os alunos gostam de um professor
que os surpreenda, que traga novidades, que varie suas técnicas e métodos de
organizar o processo de ensino-aprendizagem.
Ensinar sempre será complicado pela distância profunda que existe entre adultos
e jovens. Por outro lado, essa distância nos torna interessantes, justamente
porque somos diferentes. Podemos aproveitar a curiosidade que suscita encontrar
uma pessoa com mais experiência, realizações e fracassos. Um dos caminhos de
aproximação ao aluno é pela comunicação pessoal de vivências, histórias,
situações que o aluno ainda não conhece em profundidade. Outro é o da
comunicação afetiva, da aproximação pelo gostar, pela aceitação do outro como
ele é e encontrar o que nos une, o que nos identifica, o que temos em comum.
Um professor que se mostra competente e humano, afetivo, compreensivo atrai os
alunos. Não é a tecnologia que resolve esse distanciamento, mas pode ser um
caminho para a aproximação mais rápida: valorizar a rapidez, a facilidade com
que crianças e jovens se expressam tecnologicamente ajuda a motivar os alunos, a
que queiram se envolver mais. Podemos aproximar nossa linguagem da deles, mas
sempre será muito diferente. O que facilita são as entrelinhas da comunicação
lingüística: a entonação, os gestos aproximadores, a gestão de processos de
participação e acolhimento, dentro dos limites sociais e acadêmicos possíveis.
O educador não precisa ser “perfeito” para ser um bom profissional. Fará um
grande trabalho na medida em que se apresente da forma mais próxima ao que ele é
naquele momento, que se “revele” sem máscaras, jogos. Quando se mostre como
alguém que está atento a evoluir, a aprender, a ensinar e a aprender. O bom
educador é um otimista, sem ser ‘ingênuo”. Consegue “despertar”, estimular,
incentivar as melhores qualidades de cada pessoa.
(Trecho do meu livro A educação que desejamos: novos desafios e como chegar lá,
p.79-81)