Howard Gardner - Inteligências Múltiplas/Potencialidades
Howard Gardner (Scranton, Pennsylvania, 1943 — ) é um psicólogo
cognitivo e educacional estado-unidense, ligado à Universidade de Harvard e
conhecido em especial pela sua teoria das inteligências múltiplas. Em 1981
foi-lhe concedido um Prémio MacArthur.
O seu livro mais famoso é provavelmente Frames of Mind, onde ele delineou sete
dimensões da inteligência )inteligência visual / espacial, inteligência musical,
inteligência verbal, inteligência lógica / matemática, inteligência interpessoal,
inteligência intrapessoal e inteligência corporal / cinestética). Desde a
publicação de Frames of Mind, Gardner propôs duas novas dimensões de
inteligência: a inteligência naturalista e a inteligência existencialista. Os
testes tradicionais de inteligência só levam em consideração das inteligências
verbal e lógica / matemática.
Recentemente, escreveu um livro intitulado Changing Minds: The Art and Science
of Changing Our Own and Other People's Minds (ISBN 1578517095).
Howard Gardner crê que todos temos tendências individuais (áreas de que gostamos
e em que somos competentes) e que estas tendências podem ser englobadas numa das
inteligências listadas acima.
Entrevista
Howard Gardner é professor de Educação e co-diretor do Projeto Zero, no Harvard
Graduate School of Education, e professor adjunto de Neurologia na Boston
University School of Medicine. É autor de inúmeros livros, incluindo "Estruturas
da Mente", "A Criança Pré-Escolar: como pensa e como a escola pode ensiná-la" e,
mais recentemente, "Mentes que Criam". Em 1981, Gardner recebeu o Mac Arthur
Prize Fellowship e, em 1990, tornou-se o primeiro americano a receber o
Louisville Grawemeyer Award in Education.
Pátio – Seu livro Inteligências Múltiplas: A teoria na prática, publicado
pela Artes Médicas em português, atraiu o interesse de muitos educadores
brasileiros. Na sua opinião, qual seria a razão para este sucesso?
Howard Gardner – Não posso falar especificamente sobre o Brasil. A teoria
das IM (Inteligências Múltiplas) tornou-se popular em muitos países porque
proporciona apoio para um fato que a maioria dos professores (e a maioria dos
pais) sabe: as crianças têm mentes muito diferentes umas das outras, elas
possuem forças e fraquezas diferentes, e é um erro pensar que existe uma única
inteligência, em termos da qual todas as crianças podem ser comparadas. Muitos
programas educacionais têm sido baseados na teoria, e esses programas contém
inovações promissoras no currículo, na pedagogia, na avaliação e no uso de
recursos fora do prédio da escola.
Pátio – O senhor não tem medo de que seu trabalho de pesquisa possa ser
visto como uma nova panacéia, já que o público está sempre ávido por novidades?
Gardner – Evidentemente, não posso ser responsável pelo uso que as
pessoas dão às minhas idéias. Espero que esses usos sejam responsáveis.
Recentemente, comecei a escrever artigos que salientam algumas concepções
errôneas. Por exemplo, criar sete ou oito testes, um para cada inteligência, é
muito arriscado – pode repetir o mesmo tipo de rotulação que ocorreu nos testes
únicos de inteligência.
Pátio – Que nova visão da educação a teoria das Inteligências Múltiplas
nos daria?
Gardner – A implicação educacional mais importante das teorias das IM é
esta: todos nós temos tipos diferentes de mente, e o bom professor tenta se
dirigir à mente de cada criança da forma mais direta e pessoal possível. Se os
professores têm uma turma de alunos muito grande, é difícil fazer isso. Mas se o
foco começa no jardim de infância, e se os pais (e mais tarde as crianças)
entram no esquema, torna-se possível um tipo de educação mais personalizado.
Atualmente estou escrevendo um livro em que demonstrarei como tópicos
importantes – como a teoria da evolução e o Holocausto – podem ser ensinados, de
modo que as crianças com diferentes perfis intelectuais compreendam as idéias
básicas.
Pátio – Fale-nos um pouco sobre o Projeto Zero da Harvard e sobre o
trabalho de pesquisa que começou a ser desenvolvido lá.
Gardner – O Projeto Zero da Harvard, iniciado por Nelson Goodman e co-dirigido
por David Perkins, realiza pesquisas básicas sobre cognição, aprendizagem e
artes há 30 anos. Atualmente, estamos envolvidos numa variedade de projetos –
incluindo um estudo sobre se as pessoas podem ser criativas e também
responsáveis; o treinamento do automonitoramento na aprendizagem; se a
aprendizagem artística "se transfere" para outras disciplinas nas escolas; uma
revisão das escolas que ensinam para as inteligências múltiplas. Estamos no
negócio de criar novas idéias e ver se elas podem ser colocadas em prática – nas
escolas, nos museus e em outros ambientes educacionais.
Pátio – Que resultados sua pesquisa colheu após as mudanças ocorridas na
prática pedagógica decorrentes da utilização de sua teoria nas escolas?
Gardner – A pesquisa sobre as inteligências múltiplas ainda está em seu
período de bebê. Mas posso dizer, com certa confiança, que tanto os alunos
quanto os professores passam a refletir mais sobre sua aprendizagem; mais
crianças sentem que suas forças pessoais estão sendo reconhecidas; pais e alunos
têm mais enfoques e questões a discutir; os alunos fazem projetos que são
efetivos e aprendem a se apresentar convincentemente em público. Entretanto,
estes resultados felizes e positivos não acontecem automaticamente: os
professores precisam trabalhar de modo perseverante por alguns anos para dominar
as idéias e coloca-las em prática, sempre refletindo sobre aquilo que está
funcionando bem e aquilo que não está.
Pátio – Na teoria das Inteligências Múltiplas, como é feita a avaliação
pedagógica?
Gardner – Conforme mencionado anteriormente, não estou muito interessado
em determinar quais são os objetivos da aprendizagem – os papéis a serem
atingidos, as habilidades a serem dominadas, os desempenhos a serem buscados.
Isso seria avaliado, então, da maneira mais direta possível, e não através de
testes de respostas curtas, avaliados por uma máquina. Se você quer saber se
alguém é capaz de escrever um editorial efetivo, ou executar um experimento,
deve fazer com que as pessoas realizem essas tarefas. E se você quer saber se os
professores são capazes de ajudar os alunos nessas atividades, observe os alunos
trabalhando sob a supervisão dos professores e examine o trabalho dos alunos e o
feedback que recebem.
Pátio – Considerando a teoria das Inteligências Múltiplas, qual seria o
maior desafio para a educação? E qual seria o papel do professor?
Gardner – O maior desafio é conhecer cada criança como ela realmente é,
saber o que ela é capaz de fazer e centrar a educação nas capacidades, forças e
interesses dessa criança. O professor é um antropólogo, que observa a criança
cuidadosamente, e um orientador, que ajuda a criança a atingir os objetivos que
a escola – ou o distrito, ou a nação – estabeleceu.
Pátio – Como os sistemas de comunicação, que são cada vez mais rápidos,
interferem na educação e na inteligência?
Gardner – Os sistemas de comunicação cada vez mais rápidos não são bons
nem maus em si mesmos – não mais do que o rádio ou o telefone são inerentemente
bons ou maus. O risco é que receberemos tantas mensagens, tão rapidamente, com
tão pouco controle de qualidade, que não poderemos nos sentar calmamente e
avaliar o que é importante, a que devemos prestar atenção e o que devemos
ignorar. Mas sempre nos resta o poder de desligar a máquina.
Pátio – Na sua opinião, quais são as perspectivas para a educação no
próxima século?
Gardner – As constantes em educação são ajudar o indivíduo a compreender
seu mundo, a ser capaz de lidar com a mudança e a ser humano cívico. Como fazer
essas mudanças é algo que muda em certos aspectos, mas continua constante em
outros. Uma vez que existe tanto a aprender, precisamos ser mais seletivos e
estratégicos, e precisamos ajudar os indivíduos a continuar aprendendo depois
que saem da escola.
Pátio – Como a criatividade emerge durante o desenvolvimento do ser
humano?
Gardner – Todo indivíduo tem o potencial para ser criativo. Mas as
pessoas só serão criativas se quiserem ser – se estiverem dispostas a contestar
a ortodoxia, a aceitar as críticas, a não se pertubar com ataques ou insultos.
Minha contribuição a respeito deste assunto é dupla: 1) ao invés de ver a
criatividade como uma propriedade geral, vejo os indivíduos como criativos ou
não-criativos em domínios específicos, que geralmente mapeiam a inteligência; 2)
como Csikszentmihalyi, vejo a criatividade como envolvendo não apenas mentes
humanas, mas também domínios em que os indivíduos trabalham, e campos que
realizam julgamentos sobre a qualidade e a novidade do trabalho.
Pátio – Como as inteligências se desenvolvem na velhice?
Gardner – Enquanto o indivíduo não ficar senil, ele pode continuar a
desenvolver inteligência. Precisamos praticar, enfrentar novos desafios,
refletir sobre aquilo que aprendemos. Provavelmente, algumas inteligências (como
as pessoais) continuam a se desenvolver muito naturalmente durante toda a vida;
outras, como a lógico-matemática, habitualmente se atrofiam, a menos que a
pessoa tenha um foco específico.
Pátio – O livro de Daniel Goleman (Inteligência Emocional) também fez
muito sucesso entre os educadores brasileiros. Nesse livro, ele enfatiza que os
sentimentos não eram considerados nos antigos testes de QI e aponta uma nova
maneira de se pesquisar nessa área. Entretanto, as proposições de Goleman se
aproximam dos manuais de auto-ajuda. Qual é a relação da sua proposta com a de
Goleman?
Gardner – Gosto do livro de Daniel Goleman. Sua discussão da inteligência
emocional é similar à minha discussão das inteligências interpessoal e
intrapessoal. Minha única crítica – à qual você alude – é que Daniel tende a
fundir o descritivo (o que as inteligências são) com o prescritivo (como são os
seres humanos). Da minha perspectiva, as inteligências são amorais – tanto
Goethe quanto Goebbels eram mestres da língua alemã, mas Goebbels usou isso para
fomentar o ódio.
Pátio – A década de 90 está sendo caracterizada como a "década do cérebro".
Nunca foi feita tanta pesquisa sobre a inteligência artificial. Seria possível
construir um computador que fosse um réplica mecânica das sete inteligências
humanas?
Gardner – Algumas inteligências são bem mais fáceis de simular no
computador do que outras. Aspectos das inteligências musical e lingüística são
facilmente simulados. As inteligências pessoal e corporal seriam mais difíceis.
Recentemente acrescentei duas novas inteligências – a naturalista (entender o
mundo da natureza) e a existencial (fazer perguntas básicas sobre a vida, a
morte, o universo). Seria difícil para um computador simular a inteligência
existencial.